"Mulher de Pouca Fé": quando duvidar também é um ato de fé
- Thaiane Machado
- 8 de ago.
- 3 min de leitura
Mulher de Pouca Fé, de Simone Campos, é um romance que nos leva por esse território instável, onde crer e descrer caminham lado a lado. Por Thaiane Machado

Fé é um território movediço. Não nasce inteira, nem se perde de uma vez. Ela se constrói em pequenas certezas, se quebra em silêncios, se refaz em perguntas. "Mulher de Pouca Fé", de Simone Campos, é o relato de quem atravessou esse chão instável e descobriu que, muitas vezes, a dúvida também é uma forma de acreditar.
A protagonista cresceu dentro da igreja neopentecostal Arca, respirando seus ritos, cantando suas músicas, seguindo seus códigos. Anos depois, já fora desse espaço, ela tenta reconstruir sua vida e identidade, revisitando a infância e adolescência sob o peso da fé imposta, da vigilância comunitária e dos rituais que atravessaram sua formação. Entre cultos, orações e culpas, cresceu carregando a sensação de não se encaixar, como se houvesse uma barreira invisível entre ela e o resto do mundo. Anos depois, longe da igreja, recebe um diagnóstico de autismo. E de repente, peças antes soltas encontram lugar. O passado ganha novas leituras. O que parecia apenas timidez, inadequação ou “rebeldia espiritual” revela-se como uma outra forma de existir.
"Se eu não fosse exatamente como eu sou, não teria me tornado evangélica. Nem escritora" - Simone Campos
Desde pequena, Simone aprendeu os códigos: a forma certa de vestir, falar, amar, pensar. Carregou na pele e no coração a certeza de que “ser da igreja” era sinônimo de “ser uma pessoa boa”. Mas, como a autora nos lembra com delicadeza e contundência, a hipocrisia religiosa não mora apenas dentro de templos, ela habita o próprio ser humano. Entre líderes e fiéis, há quem pregue amor e viva ódio; quem pregue humildade e acumule poder. Esse descompasso é talvez a falha mais profunda que o livro expõe: a distância entre o discurso e a prática, entre o que se diz em nome de Deus e o que se faz em nome próprio.
O peso da culpa e da moral também atravessa a narrativa. A culpa por desejar, por duvidar, por não se sentir “espiritualmente suficiente”. A moral construída não como ética viva, mas como manual de regras imutáveis, onde a aparência de santidade vale mais do que a integridade real. O livro questiona essa equação perversa que coloca “estar na igreja” como selo automático de bondade, mesmo quando as atitudes contrariam os próprios princípios pregados no altar.
"Meu principal problema em sair da igreja de vez era que eu não queria desistir de ser boa. Era um problema moral [...]. Aliás, àquela altura eu notava que grande parte dos cristãos que me cercavam não era nem ética nem boa, mas apenas protegia a uniformidade do grupo, inclusive no secreto desrespeito coletivo às regras que em público eles mesmos pregavam e diziam seguir" - Simone Campos
E há, ainda, a igreja como um espaço de manipulação e busca de poder — social, econômico e religioso. Não como caricatura, mas como estrutura real, que se alimenta da necessidade humana de pertencimento. A instituição, no livro, aparece como uma rede que acolhe, mas também prende. Que conforta com regras claras, mas, ao mesmo tempo, sufoca quem precisa respirar fora delas. A protagonista nos mostra como, por muitos anos, seguir essas regras foi um alívio, próprio da sua condição de criança/adolescente autista.
Mulher de Pouca Fé também é sobre reconstrução. É sobre olhar para trás e recontar a própria história com palavras novas. É sobre entender que fé, religião e crença não são a mesma coisa — e que é possível criar caminhos que não dependam de intermediários para chegar ao sagrado.

No encontro online do Beer And Book, tivemos a honra de ouvir Simone Campos. E ali, entre perguntas e confidências, ela nos trouxe luz para questões que não estavam diretamente nas páginas, mas ecoavam no subtexto. Falou de como viver a religião, para ela, foi também encontrar conforto em seguir normas. Não apenas medo do castigo, mas o alívio de ter um roteiro pronto para a vida. Uma obediência que, no início, parecia sinônimo de segurança.
Ler "Mulher de Pouca Fé" dentro do nosso tema do ano, Experienciar, nos fez entender que viver não é apenas somar alegrias e certezas, mas atravessar contradições. É se deparar com a própria sombra, reconhecer a fragilidade humana e perceber que a fé não é estática. Que ela pode ser reinventada, desconstruída ou até abandonada e que tudo isso também é viver. A verdadeira espiritualidade não é cega. Ela se constrói no diálogo com a dúvida, no enfrentamento das hipocrisias, inclusive as nossas, e no exercício diário de buscar sentido para continuar caminhando, mesmo quando as respostas não chegam.
Comentários