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O que acontece com o amor quando não há centro, promessa ou permanência, em "Histórias de Amor no Novo Milênio", de Can Xue

Entre desejo, deslocamento e maturidade, um romance que pensa o novo milênio como tempo de vínculos instáveis e experiências incendiárias. Por Thaiane Machado

Lia é uma mulher que caminha sem saber que está prestes a atravessar a noite mais estranha da própria vida.

















Ler "Histórias de amor no novo milênio" não uma tarefa fácil para leitores que buscam sentido. O leitor é deslocado para uma experiência em que o real parece poroso e as situações sugerem um enigma que talvez nem exista. Esse estranhamento não é só estético, ele produz um tipo de leitura que exige entrega. Can Xue é frequentemente apresentada como uma das vozes mais radicais da vanguarda chinesa contemporânea. Seu trabalho é descrito como experimental, abstrato, não convencional, e a própria autora já nomeou sua escrita como “literatura da alma”, interessada em paisagens internas profundas mais do que em realismo psicológico tradicional.


Isso se traduz numa narrativa polifônica (capítulos narrados por diferentes personagens), conectada por fios frouxos e por uma sensação de semicirculação, em que o romance “passa” de uma voz a outra, de uma cena a outra, sem a obrigação de amarrar tudo em explicação. O leitor entra num mundo em que personagens não são “redondos” no sentido clássico; eles mudam, escorregam, reaparecem; o sentido não está na chave final, mas na tensão constante entre desejo, trabalho, fantasia e sobrevivência. É mais que um surrealismo "kafkaniano", como muitas vezes ela é comparada, é um convite a discutir uma literatura não como forma de representar o mundo, mas como o mundo é sentido.


"Histórias de amor no novo milênio" não é apenas um livro estranho em sua forma. Ele queima a ideia de linearidade, de identidade fixa, de amor como abrigo. O romance de Can Xue é um livro em combustão permanente. Ele dissolve fronteiras entre pessoas, gêneros, interior e exterior, sanidade e delírio, amor e estranhamento. Ler este livro é aceitar que há verdades que não se organizam mais em histórias coerentes. E isso é profundamente incendiário. A história não se constrói a partir de uma única trama central, mas de uma constelação de histórias interligadas, que se deslocam continuamente de foco, tempo e perspectiva. Ela avança por encadeamentos de encontros, trocas de desejo, deslocamentos de trabalho e retornos à origem. Em vez de um único arco protagonista, o livro acompanha um conjunto de homens e mulheres que circulam por uma paisagem urbana-industrial (fábricas, comércio, fraude, exploração) atravessada por sexo, romance e uma sensação permanente de enigma. Ainda sim o romance se inicia com um eixo central:

  • CUILAN: viúva de 35 anos e almoxarife, vive sozinha na cidade, que frequenta uma estância termal com “serviços especiais” e ali conhece o seu amante;

  • WEI BO: Empregado de fábrica de sabão, casado, amante de Cuilan; também associado a atividades ilegais. Ele funciona como nó de ligação entre várias histórias.


Eles se conhecem na estância e a relação entre os dois nasce sem idealização, marcada mais por desejo, rotina e conveniência. Logo no início, Wei Bo aparece na casa de Cuilan apenas para anunciar que não poderá ficar e desaparece de sua vida por semanas. A ausência dele desencadeia o primeiro grande movimento do livro, em que Cuilan se sente esvaziada e deslocada.


"Quando Cuillan ficou viúva, muitos homens foram atrás dela. Considerava-se egoísta por não estar disposta a sacrificar nada por eles, por isso insistiu em ficar solteira. Assim permaneceu por muito anos e, embora não pudesse dizer que era livre, não se sentia injustiçada" - Can Xue

Ela retorna ao seu interior, à sua antiga terra ancestral, mas esse retorno não é reconfortante. Ao contrário, o campo surge como um espaço estranho, quase irreal, onde o tempo não obedece à lógica comum, onde parentes parecem deformados, onde o dia e a noite são descritos como realidades diferentes. De volta à cidade, a narrativa se fragmenta ainda mais. A teia se expande quando surgem as figuras conectadas a ele e a esse circuito:

  • XIAO YUAN: esposa de Wei Bo, é professora e “fissurada em relógios” - Sua obsessão pelo tempo (relógios) vira pulsação temática (tempo, repetição, descompasso). Ela se apaixona por Dr. Liu, deslocando o triângulo conjugal para outra gramática de desejo;

  • DR. LIU: Médico de medicina tradicional chinesa. Surge como figura de atração para Xiao Yuan e como um tipo de “voz de mundo”

  • SR. YOU: Um excêntrico antiquário ligado ao circuito de relações do livro, um dos homens na órbita afetiva e social dessas mulheres;

  • XIAO HE: policial, ex-namorado de Cuilan, que carrega o seu próprio fio amoroso não correspondido.


Além disso, há uma rede de mulheres que trabalharam juntas na tecelagem e que, mais tarde, tornam-se prostitutas, formando uma comunidade feminina marcada por solidariedade, humor e sobrevivência.

  • LONG SIXIANG: uma ex-operária da tecelagem, que abandona o trabalho industrial após anos de exaustão física e perspectiva de morte precoce. Junto de Jin Zhu, ela migra para o trabalho sexual, decisão tomada não como escolha moral, mas como estratégia de sobrevivência;

  • JIN ZHU: também é ex-operária da tecelagem e companheira inseparável de Long Sixiang durante a transição para o trabalho sexual. Diferentemente da amiga, Jin Zhu sofre de tuberculose, o que adiciona uma camada constante de fragilidade física à sua existência. Ainda assim, ela é descrita como emocionalmente intensa, leal e dotada de uma esperança quase obstinada, acreditando que “o mundo ainda guarda maravilhas”, mesmo quando tudo aponta para o contrário. Jin Zhu funciona como figura de cuidado e memória coletiva. Ela acredita ter a “melhor vida” entre as três mulheres (ela, Long Sixiang e A Si) e, por isso, sente-se responsável por protegê-las;

  • A SI: a mais jovem do trio e também ex-operária da tecelagem. A sua trajetória é marcada por uma relação passada com Wei Bo, que a abandonou, deixando nela um rastro de sofrimento e ambivalência. Ainda assim, ela demonstra uma coragem quase instintiva diante do perigo, sendo descrita como alguém que “não sente medo quando colocada em situações extremas”. Além de Wei Bo, A Si se envolve com A Yuan, figura masculina associada à violência latente e à autodestruição. A Si reconhece que, ao lado dele, nunca experimentou felicidade, apenas miséria. É, no entanto, com Gu Dabo, o dono do barco, que A Si vive um romance de outra natureza que não se constrói como promessa de futuro, mas como intervalo, como respiro. A Si não aposta em nenhum homem como saída definitiva, não romantiza o amor, mas também não o rejeita completamente.


"Long Sixiang e Jin Zhu iam aos bordéis em quase todas as noites. Elas não tinham dinheiro para gastar, só queriam encontrar um trabalho. Os cafetões olhavam-nas com desprezo. Ninguém queriam contratá-las - Jin Zhu, você acha que estamos ficando velhas? - Long Sixiang, a meu ver você é a mais atraente do que qualquer outra mulher. Não devemos desistir. Acho que ainda há muitas surpresas guardadas para a gente neste mundo" - Heloisa Seixas

Can Xue trata o amor como rede instável que liga e desliga, acopla e desacopla, frequentemente mais perto do sexo, da transação e do impulso do que de uma narrativa romântica clássica. O que “conecta” os personagens é justamente esse movimento do desejo. O amor, então, vira uma espécie de tecnologia social: casamento, adultério, trabalho industrial, prostituição, ilegalidade, reputação. Ela propõe o amor como uma circulação de desejo, onde ninguém está no meio e todos estão conectados por linhas móveis.



Neste livro, ninguém “termina com alguém” porque o fim, como categoria clara, já não existe. As relações não se encerram, elas se deslocam, mudam de lugar, de intensidade, de forma. Pessoas saem de cena e retornam sob outras configurações, partindo da constatação de que, no novo milênio, os vínculos não obedecem mais à lógica da linearidade (começo, desenvolvimento, conclusão), mas a uma lógica de circulação contínua. Quando as grandes narrativas falharam, o desejo continua se movendo, sem garantia, sem promessa de sentido. Não há um “amor principal” que organiza os demais e sim sobreposições, restos, retornos, obsessões, fugas. Por isso, o amor em "Histórias de amor no novo milênio" como corrente elétrica que passa, conecta, provoca curto-circuitos, ilumina por instantes e depois segue adiante. Essa é a grande "tese" de Can Xue.


A busca da felicidade

Sendo assim, a busca pela felicidade, em "Histórias de amor no novo milênio", não se organiza como promessa, recompensa ou estado alcançável. Ela aparece como movimento inquieto, como insistência, como tentativa que nunca se conclui — e é justamente aí que o romance se distancia das narrativas clássicas de amor e realização pessoal. Nenhuma das personagens persegue a felicidade como objetivo claro. O que elas fazem é seguir impulsos, responder a desejos que surgem sem aviso, aceitar deslocamentos que não oferecem garantia alguma. Long Sixiang é talvez a personagem que mais explicitamente encarna essa busca torta. Ela se move entre pessoas, espaços e situações e não há satisfação plena, mas há intensidade. Para ela, a felicidade não se confunde com estabilidade emocional ou amor correspondido, mas como sensação de estar viva dentro de uma experiência, ainda que confusa ou contraditória.


A Si atravessa o romance como alguém que não espera mais ser salva. A felicidade, para ela, está menos no encontro do “par certo” e mais na capacidade de permanecer em movimento, mesmo depois da dor, da perda e da desilusão. A Si busca vitalidade. Wei Bo é talvez o personagem mais preso à ideia tradicional de felicidade e, por isso, o mais infeliz. Seus relacionamentos se multiplicam, mas não se resolvem. A felicidade, para Wei Bo, aparece sempre como algo que poderia ter sido, nunca como algo que se realiza.


"Long Sixiang e Jin Zhu iam aos bordéis em quase todas as noites. Elas não tinham dinheiro para gastar, só queriam encontrar um trabalho. Os cafetões olhavam-nas com desprezo. Ninguém queriam contratá-las- Jin Zhu, você acha que estamos ficando velhas?- Long Sixiang, a meu ver você é a mais atraente do que qualquer outra mulher. Não devemos desistir. Acho que ainda há muitas surpresas guardadas para a gente neste mundo" - Heloisa Seixas

A quebra de gênero e idade

Quando falamos de gênero neste livro, não estamos falando apenas de mulheres e homens como categorias sociais, mas de modos de estar no mundo. As mulheres se movem em rede, conversando, observando, se reconhecendo, mesmo quando disputam o mesmo homem. Há alianças silenciosas, cumplicidades improváveis, encontros que não pedem permissão ao ciúme nem à moral. O desejo feminino busca continuidade de vida. Já os homens aparecem, muitas vezes, como forças de interrupção. Mesmo quando amam, fazem isso de forma oblíqua, incompleta, tardia, apresentando uma dificuldade masculina recorrente de sustentar o vínculo sem enquadrá-lo ou abandoná-lo. Isso não significa que as mulheres sejam “melhores” ou mais livres e sim que o mundo funciona num ritmo feminino, mas ainda é atravessado por estruturas masculinas que tentam conter esse ritmo.


Além disso, muitas personagens estão acima dos 40 e carregam um tipo de experiência em que a maturidade é o território das coisas que não se resolveram. Em Can Xue, envelhecer não significa aprender a controlar o desejo e sim ver o desejo persistir sem desculpa, sem narrativa bonita, sem aquela ideia de “a essa altura da vida eu já deveria saber”. Do lado feminino, o romance não premia as personagens com a calma do “já vivi tudo”. Pelo contrário: as mulheres maduras continuam atravessadas por falta, impulso e indecisão. Can Xue parece sugerir que o novo milênio não inventou apenas novos amores — inventou uma nova sensação de tempo: pessoas maduras continuam em trânsito, continuam desejando, continuam errando, como se a vida não tivesse obedecido à narrativa de “agora sim, estabiliza”.


Ao final, "Histórias de amor no novo milênio" traz uma pergunta incômoda: como seguir vivendo quando o amor já não promete abrigo, sentido ou permanência? Can Xue escreve a partir desse impasse e não oferece respostas conciliadoras. O que ela nos entrega é um mundo em fricção constante, onde o desejo se organiza em circulação, a felicidade não é conquista, mas tentativa, envelhecer é continuar vivendo. Por isso, este livro inaugura um ano que escolhe incendiar: ele não preserva formas antigas de amar, não protege ilusões confortáveis, não resfria o que pulsa. Ler Can Xue é aceitar que amar, hoje, talvez seja continuar em movimento, mesmo quando não há promessa, mesmo quando não há chão, mesmo quando tudo ainda queima.




 
 
 

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