"Mata Doce", de Luciany Aparecida: O que fazemos com aquilo que não podemos apagar?
- Thaiane Machado

- há 16 horas
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Luciany Aparecida escreve sobre mulheres, memória e permanência para lembrar que sobreviver talvez seja também encontrar uma forma de fazer a vida chegar até quem vem depois. Por Thaiane Machado

Mata Doce, de Luciany Aparecida, é um romance de acontecimentos muito duros escrito sem permitir que a dureza ocupe todo o espaço. Penso que seja porque suas personagens vão ficando próximas de um jeito quase doméstico, como se depois de algum tempo também soubéssemos onde fica a cozinha do casarão, reconhecêssemos o cheiro das rosas brancas e não estranhássemos encontrar Chula por perto. Ou porque Luciany escreve sobre uma coisa que me comove particularmente na literatura, que é aquilo que as pessoas fazem para continuar existindo quando a vida que imaginaram para si já não é mais possível.
No centro dessa história está Maria Teresa da Vazante, embora dizer apenas isso seja insuficiente, porque dentro dela existem muitas mulheres. Existe a menina encontrada entre as bananeiras, sem fala, acolhida por Mariinha e Tuninha no casarão do lajedo. Existe a jovem que aprende datilografia e ponto de cruz, cresce cercada pelo roseiral de rosas brancas e se apaixona por Zezito. Existe a noiva que espera se casar num domingo e, no sábado anterior, vê seu futuro ser interrompido pelo assassinato do homem que ama. E existe Filinha Mata-Boi, a mulher que nasce depois dessa ruptura, aprende um ofício reservado aos homens e chega aos 92 anos cercada pelas lembranças de uma Mata Doce que já não existe como antes.
Mas contar Mata Doce somente a partir de Maria Teresa também seria reduzir o romance. Luciany constrói um povoado inteiro ao redor dela, povoado por mulheres e homens, vivos e mortos, bichos, Orixás, assombrações, histórias contadas e histórias silenciadas. Há Eustáquia da Vazante, mulher negra que foge da escravização e está na origem daquela linhagem; Agostiniana dos Santos e a Casa de Oió; Mariinha e Tuninha formando uma família e criando juntas Maria Teresa; Lai carregando durante décadas uma verdade dolorosa; Zezito e a promessa de futuro; Gerônimo Amâncio e a violência de quem acredita que possuir um documento, uma arma e poder político lhe dá também o direito de possuir terra, água e destino alheio. E há Fatoumata, que chega muito mais tarde procurando rastros da própria origem e acaba encontrando a história de outra mulher.
Tudo isso poderia resultar em um romance monumental, interessado em grandes acontecimentos e explicações. Luciany escolhe o caminho em que a sua escrita parece preferir aquilo que cabe nas mãos, como uma rosa, uma faca, um bastidor, uma máquina de escrever, uma fotografia - não é por acaso que as cinco partes do romance recebem os nomes "Rosas brancas", "Máquina de escrever", "Ponto de cruz", "Careta" e "Retrato". São objetos e imagens aparentemente pequenos que vão acumulando sentidos até se transformarem em uma espécie de gramática da existência de Filinha. As rosas dizem sobre aquilo herdamos, a máquina, o que conseguimos contar, enquanto o ponto de cruz, o que tentamos reconstruir, a careta, o que precisamos conseguir enxergar, e o retrato, finalmente, o que deixamos para quem vem depois.
Essa estrutura é uma das escolhas mais bonitas do livro porque reproduz a própria maneira como a memória funciona. Mata Doce é organizado pela intranquilidade de uma cronologia, no qual o passado invade o presente, o futuro é antecipado, uma imagem aparece antes de compreendermos seu significado e retorna páginas depois transformada por aquilo que já sabemos. Maria Teresa e Filinha às vezes parecem existir simultaneamente. A menina, a noiva e a velha de 92 anos não se sucedem perfeitamente; convivem.
" O roseiral sabia da importância daquele dia para Maria Teresa, filha de Yemanjá Sabá, e se enfeitou como nunca antes havia florido. Angélica, a irmã de Thadeu, ajustara com o padre de Santa Stella que viesse ao povoado em dia que não era de missa para realizar a cerimônia. E Américo aceitou, pois jamais negava um favor em benefício da professora Mariinha. Depois do casamento a festa se daria ali mesmo, no peitoril, quando o altar passaria a ser o lugar dos tocadores, Mané com a Gaita e Venâncio com a sanfona. Os filhos de Dinha de Jó haviam também preparado um número para a cerimônia. No dia seguinte a casa estaria cheia num entrar e sair de gente em comoção" - Luciany Aparecida
A história de Mata Doce poderia ser contada, em outra tradição narrativa, a partir de Gerônimo Amâncio, o grande proprietário, as terras, a disputa pelo rio, os conflitos políticos. Seria a história oficial de tantos lugares brasileiros de homens poderosos decidindo quem é dono de quê. Mas, quem funda, acolhe e sustenta Mata Doce são sobretudo as mulheres: Eustáquia foge da escravização e inicia uma linhagem; Agostiniana funda a Casa de Oió; Mariinha ensina; Tuninha acolhe; Lai cuida e transmite saberes; Josefa busca proteção; Luzia conhece os caminhos dos documentos; Dinha sustenta família e comércio; Maria Teresa recebe tudo isso e, muito mais tarde, encontra na escrita uma maneira de não permitir que desapareça.
Diante da violência da escravização, que separou famílias, apagou nomes e tentou interromper vínculos culturais e religiosos, mulheres negras tiveram papel fundamental na preservação e transmissão de saberes, práticas de cuidado, religiosidades, oralidades e memórias comunitárias. Essa experiência histórica ajuda também a compreender a enorme importância assumida pelas mulheres na constituição e continuidade das religiões brasileiras de matriz africana. Em Mata Doce, essa transmissão não acontece por meio de uma grande cerimônia de passagem. Ela acontece no cotidiano. É por isso que Gerônimo e as mulheres de Mata Doce representam duas maneiras quase opostas de se relacionar com um território. Ele cerca, represa, reivindica, controla, enquanto elas acolhem, plantam, alimentam, ensinam e transmitem. Gerônimo quer possuir Mata Doce e as mulheres fazem Mata Doce existir.
A morte de Zezito é a ruptura mais evidente do romance, mas o que Luciany faz depois dela é muito mais interessante do que o acontecimento em si. Maria Teresa não “supera” Zezito. Filinha segue, mas não fecha. O que ela perde naquele sábado não é apenas Zezito, é também o domingo, o casamento que aconteceria, a vida no casarão. Maria Teresa precisa viver décadas carregando saudade de acontecimentos que nunca chegaram a existir. É um luto pelo futuro, pois quando aprende a matar bois, ela não deixa de ser a mulher que estava vestida de noiva. Filinha Mata-Boi é uma maneira de continuar existindo depois que Maria Teresa se parte, é mostrar que sobrevivemos porque conseguimos inventar alguém capaz de carregar aquilo que restou.
Mata Doce nos apresenta que o visível e o invisível convivam. Os mortos não ficam devidamente guardados no passado. Venâncio e outras personagens participam desse mundo em que presença e ausência não são categorias perfeitamente separadas, enquanto determinadas aparições, como a arara azul, são recebidas sem que a narrativa interrompa tudo para nos oferecer uma explicação racional. E existe Chula, a cachorra que acompanha Maria Teresa e parece simplesmente se recusar a obedecer à cronologia que esperaríamos dela. Tentar calcular racionalmente sua idade talvez seja perder justamente aquilo que Luciany está propondo. Chula pertence ao tempo da memória e do afeto. Quando quase todo mundo já partiu, ela continua ali. Eustáquia oferece uma chave quando diz “a transformação é o ser.” Ninguém desaparece completamente, transforma a maneira de permanecer e uma comunidade inteira permanece porque alguém resolve contá-la.
"Estou sozinha com noventa e dois anos vestida de noiva num armazém antigo, num casarão vazio, com uma máquina de escrever, uma cachorra e a imagem constante de uma imensa cobra branca e um boi mal-assombrado que veste careta e largos tecidos brancos rendados. Abandono meu corpo numa cadeira. — Ô de casa! — Zezito! — respondo, chegando até a porta do armazém — Zezito não senhora. Sou Fatoumata Rosales, retratista, ao seu dispor. Passava aqui pela estrada, achei o roseiral bonito e parei para fazer umas fotos. É possível? A senhora me permite fotografar a frente desse casarão? Nós duas nos assemelhávamos. Possuíamos a mesma cor, os mesmos talhes do rosto, o mesmo desenho de corpo. Estávamos em idades distantes. A velha agora era eu. Porém, aquilo parecia um espelho." - Luciany Aparecida
Incendiar sem produzir labaredas
Mata Doce está cheio de acontecimentos brutais e, ainda assim, Luciany Aparecida não escreve uma narrativa brutal. A violência não determina a temperatura inteira do livro. Ao redor dela há mulheres fazendo bolo, bordando, preparando café, plantando rosas, oferecendo casa a quem precisa, cuidando de uma menina que não consegue falar, segurando alguém durante o luto, tocando música e contando histórias. O cuidado não aparece como ingenuidade diante da violência, mas como aquilo que permite sobreviver a ela.
E há uma imagem que, para mim, concentra tudo isso: Filinha já velha, junto ao fogão, Chula no colo, mantendo a brasa acesa enquanto se lembra daqueles que partiram. Ao redor dela, quase tudo desapareceu, mas alguma coisa pequena continua quente e o próprio romance resume essa teimosia numa frase mínima: “A vida insiste.”
No final, Fatoumata chega a Mata Doce procurando a própria origem e acaba encontrando a memória de outra mulher. Sempre achei essa uma das ideias mais bonitas do romance ao nos dizer sobre o que fazemos quando lemos. Entramos numa história procurando alguma coisa que diga respeito a nós e, quando saímos, descobrimos que passamos a carregar conosco pessoas que antes não conhecíamos. Filinha passa boa parte da velhice tentando garantir que sua história não termine quando ela terminar. E consegue.
Mata Doce é um livro que nos incendeia deixando tudo em chamas. Ele nos entrega uma brasa e a pergunta que permanece depois da última página é o que faremos para que ela não apague




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